domingo, 16 de agosto de 2015

A segunda batalha de Magh Tuiredh


A segunda batalha de Magh Tuiredh
Cath Dédenach Maige Tuired/Cath Tánaiste Maige Tuired/Cath Maighe Tuireadh Thúaidh

 Os Tuatha Dé Danonn estavam nas ilhas ao norte do mundo, aprendendo o conhecimento, a magia, o druidismo, a feitiçaria e a astúcia até eles ultrapassarem os sábios das artes do paganismo.

 Eles estavam aprendendo o conhecimento, a ciência e as artes diabólicas em quatro cidades: Falias, Gorias, Murias e Findias.

 De Falias foi trazida a Pedra de Fál que está em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei que tomasse o reino da Irlanda. 

 De Gorias foi trazida a Lança que Lugh tinha. Nenhuma batalha jamais foi vencida contra ela ou contra aquele que a empunhava. 

 De Findias foi trazida a Espada de Nuada. Quando ela era sacada de sua bainha mortal, ninguém jamais escapava dela, ela era irresistível. 

 De Murias foi trazido o Caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia jamais foi embora insatisfeita.

 Existiam quatro feiticeiros nessas quatro cidades: Mór-fesae em Falias, Esras em Gorias, Uscias em Findias e Semias em Murias. Esses eram os quatro poetas com os quais os Tuatha Dé aprenderam o conhecimento e a ciência.

 Os Tuatha Dé fizeram uma aliança com os fomorianos, e Balor, o neto de Nét, deu sua filha Ethne para Cian, o filho de Dian-cecht, e ela deu a luz à Lugh, o menino superdotado.

 Os Tuath Dé vieram com uma grande frota para a Irlanda a fim de toma-la a força dos Fir Bolg. Eles queimaram suas barcas assim que chegaram ao distrito de Corcu-Belgatan que hoje é chamado de Connemara, para que eles não pensassem em recuar; e a fumaça e a névoa que saíram de seus barcos preencheram a terra e o ar da vizinhança. Por isso foi concebido que eles chegaram em nuvens de névoas.

 A primeira batalha de Moytura foi travada entre eles e os Fir Bolg, que foram derrotados e uma centena de milhares deles foram mortos, incluindo seu rei Eochaid, o filho de Erc.

 Naquela batalha, além disso, a mão de Nuada foi cortada por Sreng, o filho de Sengann, e então Dian-cecht, o médico, colocou nele uma mão de prata com os movimentos de uma mão comum, e Credne, o braseiro, ajudou o médico.

 Os Tuath Dé Danonn perderam muitos homens na batalha, incluindo Edleo, o filho de Alla, Ernmas, Fiachra e Turill Bicreo.

 Aqueles dos Fir Bolg que escaparam da batalha saíram em fuga até os fomorianos, e se estabeleceram em Arran, Islay, Mann e em Rathlin.

 Surgiu uma contenda entre os Tuath Dé e suas mulheres sobre a soberania dos homens da Irlanda, pois após Nuada ter perdido sua mão, ele foi desqualificado para ser rei. Eles disseram que seria apropriado conceder o reinado à Bres, o filho de Elatha, em seu próprio filho adotivo, e que dar o reinado a ele faria uma aliança com os fomorianos, pois seu pai Elatha, o filho de Delbaeth, era o rei dos fomorianos.

 Agora, a concepção de Bres aconteceu dessa forma: 

 Eri, a filha de Delbaeth, uma mulher dos Tuath Dé, estava um dia olhando o mar e a terra na casa de Maeth Sceni, e contemplou o mar em perfeita calma como se o ele fosse uma tábua lisa. Quando estava lá, ela viu algo. Um barco de prata foi revelado a ela no mar. Ela julgou grande o seu tamanho, mas sua forma não tinha aparecido para ela, e o fluxo das ondas o levou para a terra. Ela então viu dentro dele um homem da mais bela forma, com um cabelo loiro que chegava até seus dois ombros. Ele usava um manto com fitas de linha dourada. Sua camisa tinha enfeites de linhas douradas. Em seu peito estava um broche de ouro, com o brilho de uma pedra preciosa nele. Ele tinha duas lanças de prata branca, com dois rebitados fustes lisos de bronze. Ele tinha cinco aros de ouro em seu pescoço e uma espada de cabo dourado com (ornamentos) de prata e rebites de ouro.

 O homem disse para ela: “Essa é a hora que deitar com você será fácil?” “Não marquei um encontro com você, na verdade,” disse a mulher. “Venha para o (encontro)”, disse ele. 

 Eles então se esticaram no chão, e a mulher chorou quando o homem se levantou.

 “Por que você chora?” disse ele.

 “Tenho dois motivos pelos quais eu devo lamentar,” disse a mulher. “Por me separar de ti, (por mais que) tenhamos nos encontrado. Os nobres jovens dos Tuatha Dea Danonn tem me suplicado em vão, mas meu desejo é por ti pela forma como me possuiu.”

 “Sua ansiedade será tirada dessas duas coisas,” disse ele. Ele tirou seu anel dourado de seu dedo do meio e colocou em sua mão, e disse que ela não deveria se separar do anel, seja por venda ou por presenteio, exceto para aquele cujo dedo se encaixa. 

 “Tenho outro pesar,” disse a mulher. “Eu não sei quem veio até mim.” 

 “Não será ignorante por isso,” disse ele. “Elotha, o filho de Delbaeth, o rei dos fomorianos, veio até você, e com o nosso encontro você irá gerar um menino cujo nenhum nome deverá ser dado a ele que não seja Eochaid Bres, que significa Eochaid, o belo, pois cada coisa bela que é vista na Irlanda, seja planície, fortaleza, cerveja¹, tocha, mulher, homem ou cavalo será (comparada) a esse menino, de forma que os homens falarão dessas coisas como ‘é um Bres’.”

 Depois disso, o homem voltou novamente pelo caminho que tinha vindo, a mulher foi para sua casa e lhe foi dada a famosa concepção.

 Então ela deu à luz um menino que foi nomeado conforme Elotha tinha dito: Eochaid Bres. Após ter se passado uma semana após o encontro da mulher, o menino tinha quinze dias de crescimento, e manteve-se assim até o final de seus sete anos, quando ele tinha alcançado um crescimento de quatorze anos.

 Devido àquela contenda que surgiu entre os Tuatha Dé, a soberania da Irlanda foi dada a esse menino, que deu sete reféns aos campeões da Irlanda, seus chefes, para recuperar a soberania se seus próprios (delitos) ocasionassem isso. Posteriormente, sua mãe lhe concedeu uma terra, e nessa terra ele teve uma fortaleza construída pelo Dagda: Dún Brese.

 Quando Bres assumiu o reinado, os fomorianos Indech, o filho de De Domnann, Elatha, o filho de Delbaeth e Tethra, os três reis fomorianos, colocaram seu tributo sobre a Irlanda de forma que não saía uma fumaça do telhado na Irlanda que não estivesse sob o tributo deles. Os campeões também foram reduzidos a seu serviço: Ogma tinha que carregar um feixe de lenha e o Dagda era um construtor de rath², por isso ele entrincheirou o Rath Brese.

 O Dagdae ficou cansado com o trabalho e sempre encontrava em sua casa um cego desocupado chamado Cridenbél, cuja boca saía de seu peito, e que achava que sua parte da comida era pequena, enquanto a do Dagdae era grande. Sobre isso, ele disse: “Ó Dagdae! Pela sua honra, me dê as três melhores partes de sua comida!” O Dagdae então costumava dar as melhores partes para ele todas as noites. Grande, no entanto, eram as partes do satirista, que era o tamanho de um bom porco, mas esses três pedaços eram um terço da comida do Dagda, e a saúde dele ficou do que isso.

 Um dia, então, o Dagdae estava na trincheira e viu o Mac Óc vindo em direção a ele. “Isso é bom, ó Dagdae,” disse o Mac Óc. “Ainda assim,” disse o Dagdae. “O que te faz parecer tão doente?” disse o Mac Óc. “Tenho uma causa,” disse o Dagdae. “Todas as noites o satirista Cridenbél pede as três melhores partes da minha comida.” 

 “Tenho um conselho para ti,” disse o Mac Óc. Ele colocou a mão em sua bolsa e tirou três coroas de ouro, e deu para ele.

 “Coloque,” disse o Mac Óc, “essas três coroas nos três pedaços que você dará para Cridenbél no final do dia. Esses serão então os melhores pedaços no prato, e o ouro virará em sua barriga de forma que o matará, e o julgamento de Bres sobre isso estará incorreto. Os homens dirão ao rei: ‘O Dagda matou Cridenbél com uma erva mortal que ele lhe deu.’ Então o rei ordenará a sua morte, mas você dirá a ele: ‘O que você profere, ó rei dos guerreiros de Féne, não é a verdade de um príncipe, pois Cridenbél me observava enquanto eu estava trabalhando e costumava me dizer, ‘Dê-me, ó Dagdae, as três melhores partes de sua comida. Minha criadagem essa noite está ruim.’

 ‘Desse modo, eu então poderia ter morrido se não fosse os três xelins que encontrei hoje que me ajudou. Eu os coloquei em minha comida e dei para Cridenbél, pois o ouro é a melhor coisa que estava na minha frente. Consequentemente, o ouro dentro de Cridenbél foi a causa de sua morte’.”

 “Está claro,” disse o rei. “Abram a barriga do satirista e vejam se encontram o ouro dentro dela. Se não for encontrado, você morrerá. No entanto se for encontrado, você viverá.”

 Depois disso, eles cortaram a barriga do satirista e as três coroas de ouro foram encontradas em seu estômago, e assim o Dagdae foi salvo.

 O Dagdae então foi para seu trabalho na manhã seguinte, o Mac Óc foi até ele e disse: “Logo você terminará o seu trabalho, e você não pedirá a recompensa até o gado da Irlanda ser levado até você, e daí você escolherá uma novilha com a juba negra, negro [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra]³.” 

 Depois disso, o Dagda terminou o seu trabalho e Bres lhe perguntou qual seria a recompensa para seu serviço. O Dagdae respondeu: “Eu te peço,” disse ele, “para reunir o gado da Irlanda em um único lugar.” O rei fez conforme o Dagdae disse, e ele escolheu a novilha que o Mac Óc tinha pedido para ele escolher. Aquilo pareceu fraqueza para Bres, pois ele pensou que o Dagda teria escolhido algo melhor.

 Nuada estava em sua moléstia e Dian-cecht colocou nele uma mão de prata com os movimentos de uma mão comum. Isso pareceu um desastre para seu filho Miach, que foi até a mão que tinha sido cortada e disse “Articulação para4 articulação e tendão para tendão,” e curou Nuada em três vezes trinta dias e noites. Nas primeiras setenta e duas horas ele colocou a mão em seu lugar, e ela foi coberta com pele. Nas setenta e duas horas seguintes, ele colocou a mão em seu peito. Nas outras setenta e duas horas ele lançou um branco [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] de negros juncos que foram enegrecidos no fogo.

 Aquela cura pareceu um desastre para Dian-cecht. Ele arremessou uma espada no topo da cabeça de seu filho que cortou a pele e a carne. O rapaz curou a ferida através de sua habilidade. Dian-cecht o feriu novamente e cortou a carne até chegar ao osso. O rapaz se curou da mesma forma. Ele o atingiu com um terceiro golpe que chegou até a membrana de seu cérebro. O rapaz se curou também se curou da mesma forma. Ele então o atingiu com um quarto golpe que cortou o seu cérebro, matando-o, e Dian-cecht disse que ele não poderia se curar daquele golpe.

 Após isso, Miach foi enterrado por Dian-cecht, e trezentos e sessenta e cinco ervas, de acordo com o número de suas articulações e tendões, cresceram em seu túmulo. Airmed então abriu seu manto e separou aquelas ervas de acordo com suas propriedades, mas Dian-cecht foi até ela e confundiu as ervas para que ninguém conhecesse suas propriedades de cura a menos que o Espírito Santo ensinasse posteriormente, e Dian-cecht disse: “Se Miach não vive, Airmed deve permanecer.”

 Bres então manteve a soberania conforme lhe foi conferida, mas os chefes dos Tuath Dé murmuravam grandemente contra ele, pois suas facas não eram besuntadas por ele e muitas vezes quando o visitavam, seus hálitos não cheiravam à cerveja. Além disso, eles não viam seus poetas, bardos, satiristas, harpistas, flautistas, sopradores de chifres, malabaristas ou os seus bobos divertindo-os na casa. Eles não iam a competições de seus atletas. Eles não viam seus campeões provando sua coragem para o rei, apenas Ogma, o filho de Etáin.

 O dever que Ogma tinha era carregar lenha para a fortaleza. Ele costumava carregar todos os dias um feixe de lenha das ilhas Clew Bay, e por ele estar fraco pela falta de comida, o mar tirava dele dois terços de seu feixe.

 Ele então só podia carregar um terço, e ainda assim, tinha que suprir a tropa todos os dias.

 Nem o serviço nem o wergild4 das tribos continuaram, e os tesouros da tribo não foram entregues pelo ato de toda a tribo.

 Um dia, o poeta dos Tuath Dé, Corpre o filho de Etaín, veio visitar a casa de Bres. Ele entrou em uma choupana estreita, escura e sombria, onde não havia fogo, móveis ou cama. Três bolinhos secos foram levados para ele em um prato pequeno. Pela manhã ele se levantou, e não estava satisfeito. Conforme atravessava o jardim, ele disse:

Sem comida prontamente em um prato,
Sem o leite da vaca com o qual o bezerro cresce,
Sem a habitação de um homem sob a (escuridão) da noite,
Sem o pagamento de uma companhia de contadores de histórias, deixe que essa seja a condição de Bres.

 “Então não existe riqueza em Bres,” disse ele. E aquilo se tornou verdade, pois nada além da decadência estava nele a partir daquela hora, e essa foi a primeira sátira feita na Irlanda. 

 Depois disso, os Tuath Dea foram juntos conversar com seu filho adotivo, Bres, o filho de Elatha, e exigiu suas garantias. Ele deu a eles a restituição do reino, ainda que não estivesse satisfeito com isso. Ele implorou para que permitissem permanecer até o fim de sete anos.

 “Terás isso,” disse a assembleia, “mas você deverá vir na mesma garantia [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra], cada fruta [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] para sua mão, tanto casa, terra, ouro, prata, gado, comida e liberdade dos alugueis e wergild até então.” “Vocês terão,” disse Bres, “conforme disseram.”

 Ele pediu esse adiamento para que pudesse reunir os campeões dos Montes-Fadas, os fomorianos, para apoderar-se das tribos à força, munido de [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: três palavras]. Doloroso para ele seria sua expulsão de seu reinado.

 Ele então foi até sua mãe e lhe perguntou qual era sua raça. “Estou certe disso,” disse ela, que foi até a colina onde tinha visto o barco de prata no mar. Ela então foi até a praia e lhe deu o anel que foi deixado com ela para ele, colocando em seu dedo do meio, e o anel se encaixou. Por conta disso, ela não entregou a ninguém, seja por venda ou presenteio; até aquele dia, o anel não cabia em ninguém.

 Eles então foram adiante até chegarem à terra dos fomorianos. Eles chegaram a uma grande planície com muitas assembleias nela, e avançaram até a mais nobre dessas assembleias. Naquele lugar, perguntaram notícias para eles, eles que disseram que eram dos homens da Irlanda. Perguntaram a eles então se tinham cães de caça, pois naquela época, era um costume quando alguns homens iam até outra assembleia, serem desafiados para uma competição amigável. “Nós temos cães de caça,” disse Bres. Os cães então fizeram uma corrida e os dos Tuath Dé eram mais velozes que os dos fomorianos. Depois, perguntaram a eles se tinham cavalos para uma corrida de cavalos. Eles responderam, “Nós temos”, e seus cavalos foram mais velozes que os dos fomorianos.

 Eles então perguntaram se algum deles era bom na espada. Nenhum foi encontrado, apenas Bres, que assim que colocou sua mão na espada, seu pai reconheceu o anel em seu dedo e perguntou quem era o herói. Sua mãe respondeu em seu favor e contou ao rei que era Bres, o filho dele. Ela então contou a ele toda a história conforme já contamos aqui.

 Seu pai ficou triste, e disse: “Qual necessidade te tirou da terra que você governa?” Bres respondeu: “Nada me trouxe, salvo minha própria injustiça e arrogância. Eu os privei de suas joias, tesouros e de sua própria comida. Nem tributo nem wergild foram tirados deles até hoje.”

 “Isso é ruim,” disse o pai. “Melhor é a prosperidade deles que o reinado. É melhor seus louvores do que suas maldições. Por que veio para cá?” disse seu pai. 

 “Vim para pedir pelos seus campeões,” disse ele. “Para que eu possa tomar a terra à força.”

 “Você não deverá tê-la por injustiça, se você não a teve por justiça,” disse o pai. 

 “Pergunta: que conselho então você tem para mim?” disse Bres.

 Após isso, ele o enviou até o campeão Balor, o neto de Net, o rei das Ilhas e para Indech, o filho de Déa Domnand, o rei dos fomorianos, e estes reuniram todas as forças do oeste de Lochlann para a Irlanda, e impuseram seu tributo e sua regra à força nos Tuath Dé, de forma que fizeram uma ponte de navios das Ilhas Estrangeiras até Erin.

 Nunca veio até a Irlanda uma tropa tão terrível ou medonha como a tropa dos fomorianos. O homem da Cítia de Lochlann e o homem das Ilhas Ocidentais eram rivais naquela expedição.

 Agora, quanto aos Tuath Dé, o que está abaixo se trata deles.  

 Depois de Bres, Nuada era novamente o soberano dos Tuath Dé. Naquela época, ele preparou para os Tuath Dé uma poderosa festa em Tara, e para cá vinha certo guerreiro cujo nome era SamildánachA. Existiam então dois porteiros em Tara: Gamal, o filho de Figal, e Camall, o filho de Riagall. Quando um desses dois estava lá, ele viu uma estranha companhia vindo em direção a ele, com um jovem nobre e formoso usando ornamentos reais na frente daquele bando.

 Eles disseram ao porteiro para anunciar sua chegada em Tara. O porteiro perguntou: “Quem está ai?”

 “Aqui está Lugh Lonnannsclech, o filho de Cian, o filho de Dian-cecht, e de Ethne, a filha de Balor. Ele é o filho adotivo de Tallan, a filha de Magmor, o rei da Espanha, e de Echaid, o Rude, filho de Duach.”

 O porteiro perguntou ao Samildánach: “Que arte tu pratica?” disse ele, “pois ninguém sem uma arte entra em Tara.”

 “Me pergunte,” disse ele, “eu sou um carpinteiro.” O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Nós já temos um carpinteiro: Luchtae, o filho de Luachaid.”

 Ele disse, “Me pergunte, ó porteiro! Eu sou um ferreiro.” O porteiro lhe respondeu: “Já temos um ferreiro: Colum Cualléinech dos três novos processos.” 

 Ele disse, “Me pergunte, eu sou um campeão.” O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Já temos um campeão: Ogma, o filho de Ethliu.”

 Ele disse novamente, “Me pergunte, eu sou um harpista.” “Não precisamos de ti. Já temos um harpista: Abhcán, o filho de Bicelmos, que os Homens dos três deuses (escolheram) nos montes encantados.”

 Ele disse, “Me pergunte, eu sou um herói.” “O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Já temos um herói: Bresal EcharlamB, o filho de Echaid Baethlam.”

 Então ele disse: “Me pergunte, ó porteiro! Eu sou um poeta e um historiador.” “Não precisamos de ti. Já temos um poeta e um historiador: Em, o filho de Ethaman.” 

 Ele disse: “Me pergunte: eu sou um feiticeiro.” “Não precisamos de ti. Já temos muitos feiticeiros. Muitos são nossos bruxos e nosso povo de poder.”

 Ele disse, “Me pergunte: eu sou um médico.”

 “Não precisamos de ti. Já temos um médico: Dian-cecht.” 

 “Me pergunte,” disse ele, “eu sou um copeiro.” “Não precisamos de ti. Já temos copeiros: Delt, Drucht, Daithe, Taé, Talom, Trog, Glei, Glan e Glési.”

 Ele disse, “Me pergunte: eu sou um bom braseiro.” “Não precisamos de ti. Já temos um braseiro: Credne Cerd.”

 Ele disse novamente: “Pergunte ao rei,” disse ele, “se ele tem um único homem que (possui) todas essas artes, e se ele tiver, não entrarei em Tara.”

 O porteiro então entrou no palácio e disse tudo ao rei. “Um guerreiro chegou ao jardim,” disse ele. “Seu nome é Samildánach e todas as artes que sua criadagem pratica, só ele possui, de forma que ele é o homem de cada e de todas as artes.”

 O rei então disse para que os tabuleiros de xadrez6 de Tara fossem levados até ele, e o Samildánach venceu todas as partidas, e então fez o Cró de Lugh.C Mas se o xadrez foi inventado na (época) da guerra de Tróia, isso ainda não tinha chegado na Irlanda, pois a batalha de Moytura e a destruição de Tróia aconteceram na mesma época.D
 
 Isso então foi relatado à Nuada. “Deixe-o entrar no jardim,” disse Nuada, “pois nunca um homem como ele entrou nessa fortaleza.”

 Então o porteiro deixou Lugh passar, e ele entrou na fortaleza, sentando-se na cadeira do sábio, pois ele era um sábio em todas as artes.

 Então Ogma arremessou pela casa uma laje7 que precisava do esforço de quatro vintenas de bois, e essa laje está do lado de fora de Tara. Esse foi um desafio para Lugh, que arremessou a laje de volta de forma que está agora no centro do palácio, e colocou a parte que tinha sido levada do lado da laje e a tornou completa.

 “Toque harpa para nós,” disseram as tropas. O guerreiro então tocou a melodia do sono para as tropas e para o rei na primeira noite. Ele fez com que eles adormecessem daquela hora até a mesma hora do dia seguinte. Ele tocou a melodia do choro, e todos choraram e lamentaram. Ele tocou a melodia do riso, e todos eles estavam felizes e alegres. 

 Quando Nuada viu os muitos poderes do guerreiro, considerou se o Samildánach poderia livrá-los da servidão que sofria dos fomorianos, e então foi realizado um conselho sobre o guerreiro. A decisão que Nuada tomou foi mudar a cadeira do guerreiro, mandando o Samildánach para a cadeira do rei, e o rei levantou-se diante dele até treze dias terem acabado.

 Então, durante a manhã, ele encontrou-se com os dois irmãos Dagdae e Ogma em Grellach DollaidE, e seus irmãos Goibniu e Dian-cecht foram chamados até eles.

 Eles conversaram secretamente durante um ano inteiro, e por isso Grellach Dollaid é chamada de Amrun dos Homens da Deusa.

 Depois disso, os feiticeiros da Irlanda foram chamados até eles, junto com seus médicos, cocheiros, ferreiros, fazendeiros e brehons8, e conversaram secretamente.

 Nuada então perguntou ao feiticeiro cujo nome era Mathgen, qual poder ele exercia. Ele respondeu que através de suas invenções, lançaria as montanhas da Irlanda nos fomorianos e rolaria seus cumes contra o chão. Ele declarou para eles que as doze montanhas chefes da terra de Erin apoiariam os Tuatha Dé Danonn no combate: Slieve League, Denna Ulad, as montanhas Mourne, Bri Ruri, Slieve Bloom, Sliab Snechtai, Slemish, Blai-sliab, Nemthenn, Sliab Maccu Belgodon, Segais e Cruachan Aigle.

 Ele então perguntou ao copeiro o poder que ele exercia. Ele respondeu que traria os doze lagos chefes da Irlanda diante dos fomorianos, mas eles não encontrariam água nos lagos, por mais que uma poderosa sede se abatesse sobre eles. Estes eram os lagos: Derg-loch, Loch Luimnigh, Lough Corrib, Lough Ree, Lough Mask, Strangford Lough, Loch Laeig, Lough Neagh, Lough Foyle, Lough Gara, Lough Reagh e MárlochF. Eles iriam recorrer aos doze rios chefes da Irlanda: Bush, Boyne, Baa, Nem, Lee, Shannon, Moy, Sligo, Erne, Finn, Liffey e Suir, e todos eles seriam ocultados dos fomorianos, de forma que não encontrariam uma única gota dentro deles. Bebidas seriam fornecidas aos homens da Irlanda, mesmo que ficassem na batalha até o fim de sete anos.

 Então o druida Figol, o filho de Mamos, disse: “Eu farei com que três chuvas de fogo derramem na face da tropa dos fomorianos, eu tomarei dois terços de sua coragem, bravura e força e prenderei a urina em seus corpos e nos corpos de seus cavalos. Cada expiração que os homens da Irlanda exalarem serão um aumento de coragem, bravura e força para eles. Apesar de ficarem na batalha até o final de sete anos, eles não ficarão cansados de forma alguma.”

 O Dagdae disse: “Eu domino todos esses poderes que vocês se vangloriam.” “Você é o Dagdae (a boa mão)”, disseram todos, e daí em diante ele aderiu ao nome ‘Dagdae’.

 Eles se separaram do conselho concordando em se encontrarem novamente dentro de três anos a partir daquele dia. 

 Quando os (mantimentos) da batalha foram resolvidos, Lugh, Dagdae e Ogma foram para os três Deuses de Danu, e estes deram a Lugh o [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] da batalha, e durante sete anos eles se preparavam para a batalha e faziam suas armas.

 O Dagdae tinha uma casa em Glenn Etin, no norte.

 O Dagdae tinha um encontro com uma mulher em Glenn Etin naquele dia próximo ao Samhain da batalha. O rio Unius de Connaught ruge ao sul de lá. Ele viu uma mulher em Unius em Corann se banhando, com um de seus dois pés em Alloch Echae, isto é, em Echumech, no sul da água, e o outro pé em Loscuinn, no norte da água. Nove tranças frouxas estavam em sua cabeça. O Dagdae conversou com ela e eles formaram uma união. ‘A Cama do Casal’ é o nome daquele lugar, daquele dia em diante. A mulher mencionada aqui é a Morrígan Lamia.

 Ela então contou ao Dagda que os fomorianos desembarcariam em Magh Scetne e ela (chamaria) os homens de arte de Erin para encontra-la no Vau de Uinius, e ela iria até Scetne para destruir Indech, o filho de Dé Donann, o rei dos fomorianos, e despojá-lo do sangue de seu coração e os seus testículos9.G Ela posteriormente daria dois punhados daquele sangue para a tropa que estaria esperando-a no Vau de Uinius. ‘Vau da Destruição’ passaria ser o nome daquele local, por conta da destruição do rei. 

 Aquilo então foi feito pelos artistas e eles cantaram feitiços sobre as tropas dos fomorianos.

 Isso foi uma semana antes do Samhain, e cada um deles se separou do outro até todos os homens da Irlanda se encontrar na véspera do Samhain. Seis vezes trezentos era seu número, que são duas vezes trezentos em cada terça parte. 

 Lugh então enviou o Dagda para espionar os fomorianos e atrasá-los até os homens da Irlanda vir para a batalha.

 O Dagda foi até o acampamento dos fomorianos e pediu a eles uma trégua da batalha, e foi garantido como ele pediu. Os fomorianos prepararam um mingau para ele, para zombá-lo, pois grande era o seu amor por mingau. Eles encheram o caldeirão do rei de cinco punhos de profundidade, com quatro galões de leite fresco e a mesma quantidade de farinha e gordura. Cabras, ovelhas e porcos foram colocados para serem cozidos junto com o mingau. Eles derramaram para ele um buraco no chão e Indech disse que ele morreria se não comesse tudo; ele deveria comer sua parte para que não reprovasse os fomorianos com inospitalidade.

 O Dagdae pegou sua colher, grande o suficiente para um homem e uma mulher se deitarem no meio dela e pegou partes de porco salgado e um quarto de banha de porco. 

 O Dagdae disse: “Bom será se o caldo for igual ao cheiro”, e quando ele colocava a colher cheia em sua boca ele dizia: “Seus [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] não o estraga, diz o velho homem.”

 No final, ele colocou seu dedo curvado no fundo do buraco entre os cascalhos e a lama, e ficou sonolento após ter comido seu mingau. Maior que um caldeirão caseiro era sua barriga, de forma que os fomorianos riram dele. 

 Ele então partiu até a praia de Eba, e não era fácil para o herói se mover devido ao tamanho de sua barriga. Sua aparência era indecente. Ele usava uma capa que chegava até seus dois cotovelos, uma túnica parda até suas grandes nádegas e calçava dois brogues10 de pele de cavalo com pelos. Uma forquilha [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] com rodas, que levava o esforço de oito homens para carrega-la, deixava um rastro atrás dele que era fundo o suficiente para ser a fronteira de um distrito, e a partir disso, o lugar foi chamado de ‘A Trilha da Clava do Dagdae’. [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: algumas linhas]H

 Os fomorianos então marcharam ate sua [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] estavam em Scetne.

 Os homens da Irlanda estavam em Magh Aurfolaigh, e as duas tropas estavam ameaçando começar a batalha. “Os homens da Irlanda se atrevem a oferecer-nos batalha,” disse Bres, o filho de Elier, para Indech, o filho de Dia Domnann. “Eu os darei sem demora,” disse Indech, “para que seus ossos sejam quebrados em partes pequenas a menos que paguem o tributo.”

 Devido ao conhecimento de Lugh, os homens da Irlanda resolveram não deixá-lo ir para a batalha. Então seus nove filhos adotivos foram deixados para protegê-lo: Tollus-dam, Ech-dam, Eru, o branco Rechtaid, Fosad, Fedlimid, Ibor, Scibar e Minn. Eles temiam uma morte prematura do herói devido à multidão de suas artes, e por isso, eles não o deixaram ir para a luta.

 Os chefes dos Tuath Dé Danann se reuniram em volta de Lugh. Ele perguntou ao seu ferreiro Goibniu o poder que ele exerceria em batalha.

 “Não é difícil dizer,” respondeu ele. “Apesar dos homens da Irlanda ficar na batalha até o final de sete anos, para cada lança que se separar de seu fuste ou para cada espada que quebrar lá, eu providenciarei uma nova arma em seu lugar. Nenhuma ponta de lança que minhas mãos forjar,” disse ele, “errará o alvo. Nenhuma pele que ela perfurar provará da vida posteriormente. Isso não foi feito por Dolb, o ferreiro dos fomorianos. Eu estou agora [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] para a batalha de Magh Tuired.”

 “E tu, ó Dian-cecht,” disse Lugh, “que poder você exercerá, de fato?”

 “Não é difícil dizer,” disse ele. “Cada homem que for ferido lá, a menos que sua cabeça seja decepada ou que a membrana de seu cérebro ou a medula (espinhal) seja separada, eu o tornarei inteiro para a batalha do dia seguinte.”

 “E tu, ó Credne,” disse Lugh para seu braseiro, “que poder exercerá na batalha?”

 “Não é difícil dizer,” respondeu Credne. “Eu irei provê-los com rebites para suas lanças, cabos para suas espadas e ornamentos e aros para seus escudos.”

 “E tu, ó Luchta,” disse Lugh para seu carpinteiro, “que poder você exercerá na batalha?”

 “Não é difícil dizer,” respondeu Luchta. “Eu irei provê-los com todos os escudos e fustes de dardos que precisarem.”

 “E tu, ó Ogma,” disse Lugh para seu campeão, “qual será seu poder na batalha?”

 “Não é difícil dizer,” respondeu ele, “vou repelir os reis e três enéadas de seus amigos e capturarei um terço do batalhão para os homens da Irlanda.” 

 “E tu, ó Morrígan,” disse Lugh, “que poder você exercerá?” 

 “Não é difícil dizer,” respondeu ela. “O que eu seguir, eu caçarei: o que eu atingir será [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra]: o que eu cortar será [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra].”

 “E vocês, ó feiticeiros,” disse Lugh, “que poder vocês exercerão?”

 “Não é difícil dizer,” responderam os feiticeiros. “Suas solas serão brancas quando forem derrotados pela nossa arte, até seus heróis serem mortos e os privaremos de dois terços de seu poder e prenderemos sua urina.” 

 “E vocês, ó copeiros,” disse Lugh, “qual poder?”

 “Não é difícil dizer,” responderam os copeiros. “Nós traremos uma forte sede sobre eles e eles não encontrarão água para saciá-la.” 

 “E vocês, ó druidas,” disse Lugh, “que poder?”

 “Não é difícil dizer,” responderam os druidas. “Nós traremos chuvas de fogo nas faces dos fomorianos para que eles não sejam capazes de olhar para cima e para que os guerreiros com quem eles estejam lutando possam mata-los com seu poder.”

 “E tu, ó Carpre, o filho de Etain,” disse Lugh para seu poeta, “que poder você exercerá na batalha?” 

 “Não é difícil dizer,” respondeu Carpre. “Eu farei o glam dicinn para eles. Eu irei satirizá-los e envergonhá-los de forma que através de minha arte, seus guerreiros não resistirão.” 

 “E vocês, ó Bé-chulle e ó Dianann,” disse Lugh para suas duas bruxas, “que poder vocês exercerão na batalha?” 

 “Não é difícil dizer,” responderam elas, “nós encantaremos as árvores, pedras e torrões de terra para que eles se tornem uma tropa contra eles e os expulsem com horror e (aflição).” 

 “E tu, ó Dagdae,” disse Lugh, “que poder você exercerá na batalha contra a tropa fomoriana?”

 “Não é difícil dizer,” respondeu o Dagdae. “Eu ficarei do lado dos homens de Erin, batendo, destruindo ou encantando. Seus ossos sob minha clava serão muitos como pedras de granizo sob os pés da manada de cavalos [lacuna: significado do texto obscuro] onde vocês encontrarão [lacuna: significado do texto obscuro] no campo de batalha de Moytura.”

 Dessa forma Lugh conversou com todos de cada vez sobre suas artes; ele fortaleceu e chamou a atenção de sua tropa para que cada homem tivesse o espírito de um rei ou de um poderoso senhor.

 Todos os dias a batalha era travada entre as tribos dos fomorianos e dos Tuatha Dé, mas os reis ou príncipes não participavam, exceto o povo forte e altivo.

 Os fomorianos se espantaram com uma coisa que foi revelada a eles na batalha. Suas armas, lanças e espadas ficavam cegas e quebradas e os seus homens que morriam, não voltavam na manhã seguinte, e era diferente com os Tuatha Dé, pois apesar de suas armas ficarem cegas ou quebradas no dia da batalha, elas eram renovadas na manhã seguinte, pois o ferreiro Goibniu estava na forja fazendo espadas, lanças e dardos. Ele fazia aquelas armas três vezes. O carpinteiro Luchtaine fazia os fustes das lanças com três cortes, e o terceiro era uma finalização para encaixá-lo no aro da lança. Quando as pontas das lanças eram emperradas na forja, ele atirava os aros com os fustes e era desnecessário montá-las novamente. O braseiro Credne fazia os rebites três vezes e colocava os aros das lanças neles, e era desnecessário [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] diante deles, e assim eles faziam juntos.

 Os guerreiros mortos lá eram estimulados de forma que ficavam mais rápidos na manhã seguinte, pois Dian-cecht, seus dois filhos Octriuil e Miach e sua filha Airmed cantavam feitiços sobre o poço chamado Sláine. Seus homens mortalmente feridos eram lançados lá como se estivessem mortos e depois saíam vivos. Os mortalmente feridos ficavam saudáveis novamente através do poder do cântico dos quatro médicos sobre o poço.

 Isso era prejudicial aos fomorianos, que disseram para um homem deles inspecionarem a batalhe o (costume) dos Tuath Dea: Ruadán, o filho de Bres e de Brígh, a filha do Dagda, pois ele era o filho e o neto dos Tuath Dé. Ele então contou para os fomorianos o trabalho do ferreiro, do carpinteiro, do braseiro e dos quatro médicos ao redor do poço. Ele foi enviado novamente para matar um dos artistas, Goibniu. Ele pediu uma lança para Goibniu, seus rebites para o braseiro e o seu fuste para o carpinteiro, e tudo foi dado como ele pediu. Havia uma mulher lá polindo as armas, Cron, a mãe de Fianlug, e foi ela que encalhou a lança de Ruadán. A lança foi dada a Ruadáin por um chefe, e por isso o nome ‘a lança do chefe’ é ainda usado para o cilindro de tear dos tecelões da Irlanda.

 Depois que a lança foi dada a ele, Ruadán se virou e feriu Goibniu, mas esse tirou a lança e a lançou de volta em Ruadán, atravessando-o, e ele morreu na presença de seu pai na assembleia dos fomorianos. Brígh então veio e chorou pelo seu filho. Primeiro ela gritou, e depois, chorou, e essa foi a primeira vez que os gritos e choros foram escutados na Irlanda. Foi Brígh que inventou o assobio para a sinalização na noite.
 Goibniu entrou no poço e ficou saudável novamente. Havia um guerreiro com os fomorianos cujo nome era Octriallach, o filho de Indech, filho de Dé Domnann, filho do rei dos fomorianos. Ele disse aos fomorianos para que cada deles levasse uma pedra das pedras de Drowes e lança-la no poço de Slaine em Achad Abla, à oeste de Moytura e à leste de Loch Arboch. Assim eles partiram e uma pedra para cada homem foi lançada no poço, e daí surgiu o cairn11 chamado ‘Cairn de Octriallach’. Outro nome para aquele poço é Loch Luibe, pois Dian-cécht colocou nele todo tipo de erva (lub) que crescia em Erin.
 Quando o encontro da grande batalha chegou, os fomorianos marcharam para fora de seu acampamento e se formaram em fortes e indestrutíveis batalhões. Nenhum de seus chefes ou homens de proeza estava sem uma cota de malha contra sua pele, um capacete em sua cabeça, uma grande e (sonora) espada em sua mão direita, uma pesada e afiada espada em seu cinto ou sem um firme escudo em seu ombro. Atacar a tropa fomoriana aquele dia era ‘bater a cabeça contra um penhasco’, ‘colocar a mão em um ninho de serpentes’ ou ‘confrontar o fogo’.
 Esses eram os reis e chefes que estimulavam a tropa dos fomorianos: Balor, o filho de Dot, filho de Nét, Bres, o filho de Elathu, Tuiri Tortbuillech, o filho de Lobos, Goll, Irgoll, Loscen-lomm, o filho de Lommglúnech, Indech, o filho de Dé Domnann, o rei dos fomorianos, Octriallach, o filho de Indech, Omna, Bagna e Elathu, o filho de Delbaeth.
 Do outro lado, os Tuath Dé Donann surgiram e deixaram seus nove camaradas protegendo Lugh e marcharam ao encontro da batalha. Quando a batalha (seguia), Lugh escapou de sua proteção, como seu cocheiro, e foi para frente do batalhão dos Tuath Dea. Então uma afiada e cruel batalha foi travada entre a tribo dos fomorianos e os homens da Irlanda. Lugh estimulava os homens da Irlanda para que eles lutassem a batalha fervorosamente para não ficarem mais sendo escravos, pois era melhor para eles encontrar a morte protegendo sua pátria do que ficarem sob escravidão e tributos. Portanto, Lugh cantou o cântico abaixo conforme rodeava os homens de Erin, em um pé e com um olho fechado:
Arotroi cath comartan, etc.
 As tropas proferiram um grande grito quando entraram na batalha. Eles se aproximaram e cada um começou a bater no outro.
 Muitos homens belos caíram na baia da morte. Grande eram a matança e os túmulos lá! Orgulho e vergonha estavam lado a lado, havia raiva e indignação. Abundante era o fluxo de sangue que saía da pele branca dos jovens guerreiros mutilados pelas mãos de homens mais rápidos enquanto fugiam do perigo para [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra]. Desagradável era a [...] e […] dos heróis e dos campeões mutuamente defendendo suas lanças, escudos e seus corpos quando os outros os atingiam com lanças e espadas. Desagradável, no entanto, era o trovão que estava na batalha, o grito dos guerreiros e o barulho dos escudos, o lampejo e o assobio de gládios e de espadas com o punho de marfim, o ruído e o tilintar das aljavas, o som e o voo dos dardos e lanças e a colisão de armas!
 A ponta de seus dedos e de seus pés quase se encontrava na luta mútua, e devido ao sangue escorregadio sob seus pés, eles caíam de sua postura ereta e batiam com a cabeça. Uma batalha foi levantada e era sangrenta, arrepiante, amontoada e sanguinária, e o rio Unnsenn corria com os corpos dos inimigos.
 Nuada da Mão de Prata e Macha, a filha de Ernmass, foram mortos por Balor, o neto de Nét. Cassmael foi morto por Octriallach, o filho de Indech. Lugh e Balor do Olho Penetrante se encontraram na batalha. Balor tinha um olho maligno e só era aberto no campo de batalha. Quatro homens levantavam sua pálpebra com um puxador (polido) que passava pela sua pálpebra. Se uma tropa olhasse para aquele olho, mesmo que seu número fosse muitos milhões, eles não podiam resistir. Essa foi a história de seu poder venenoso: os druidas de seu pai estavam inventando encantamentos. Ele veio e olho pela janela e a fumaça da invenção foi até esse olho, chegando até ele o veneno da mistura que posteriormente foi para o olho. Ele e Lugh então se encontraram. [lacuna: significado do texto obscuro]I
 “Levante minha pálpebra, rapaz,” disse Balor, “para que eu possa ver o tagarela que está conversando comigo.”
 A pálpebra do olho de Balor foi levantada. Lugh então lançou uma pedra do estilingue nele que fez com que o olho atravessasse sua cabeça, fazendo com que o próprio exército de Balor olhasse para ele. O olho caiu na tropa dos fomorianos e três vezes nove fomorianos morreram de forma que as coroas de suas cabeças foram contra o peito de Indech, o filho de Dé Domnann, e um jorro de sangue saiu de seus lábios.
 Indech disse: “Chamem o meu poeta Loch Meio-verde!” Metade do corpo do poeta, do chão até a coroa de sua cabeça, era verde. Loch foi até o rei. “Descubra para mim,” disse Indech, “quem me golpeou?”
 Então a Morrígan, a filha de Ernmass, veio e estimulou os Tuatha Dea para lutarem a batalha ferozmente e fervorosamente. Ela cantou a canção abaixo:
Reis se levantem para a batalha, etc.
 Posteriormente, a batalha se tornou uma derrota e os fomorianos foram espancados até o mar. O campeão Ogma, o filho de Elathu, e Indech, o filho de Dé Domnann, o rei dos fomorianos, caíram em um único combate.
 Loch Meio-verde suplicou a Lugh por misericórdia. “Me dê três desejos,” disse Lugh.
 “Você os terá,” disse Loch. “Até o último dia, eu afastarei da Irlanda todos os saques dos fomorianos, e o que [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: algumas palavras] no fim do mundo para cada doença.”
 Loch então foi poupado e cantou para os gaélicos o ‘Decreto da União’:
Gebat foss, etc.
 Loch disse que concederia nomes para as nove bigas de Lugh pela misericórdia que havia sido dada a ele. Lugh então pediu para ele nomeá-las. Loch respondeu: “Luachta, Anagat, etc.”
 “Pergunta: qual o nome dos cocheiros que estão nelas?” “Medol, Medon, Moth, etc.”
 “Qual o nome das varas que estão em suas mãos?” “Não é difícil dizer: Fes, Res, Roches, etc.”
 “Qual o nome dos cavalos?” “Can, Doriadha, etc.”
 “Pergunta: qual é o número dos mortos?” disse Lugh para Loch. “Eu não sei o número dos camponeses e da ralé. Quanto ao número dos senhores, nobres, campeões, reis e filhos dos reis fomorianos, eu sei: cinco mil e três vezes três homens, dois mil e três vezes cinquenta, quatro vezes mil e nove vezes cinco, oito vezes oito, quatro vezes sete, quatro vezes seis, oito vezes cinco e quarenta e dois, incluindo o neto de Nét. Esse é o número dos reis e altos nobres fomorianos que caíram na batalha.”
 “Contudo, quanto ao número de camponeses, pessoas comuns, ralé e o povo das artes que vieram em companhia com a grande tropa – para cada campeão, chefe e rei dos fomorianos que vieram com sua tropa para a batalha, todos caíram lá, tanto homens livres como escravos – nós contamos apenas alguns servos dos reis. Esse é o número que contei conforme vi: setecentos, sete vezes sete homens [lacuna: extensão: alguns números] junto com Sab Uanchennach, o filho de Carpre Colc, ele era o filho de um servo de Indech, o filho de De Domnann, isto é, o filho de um servente do rei fomoriano.”
 “Quanto aqueles que caíram ao lado do ‘meio-homem’ e de [lacuna: extensão: três palavras] que não chegaram ao coração da batalha, esses não serão de forma alguma contados até nós contarmos as estrelas do céu, a areia do mar, os flocos de neve, o orvalho na grama, pedras de granizo, a grama sob as patas das manadas e os cavalos do Filho de Lir em uma tempestade no mar.”
 Depois disso, Lugh e seus companheiros encontraram Bres, o filho de Elathu, desprotegido. Ele disse: “É melhor você me poupar do que me matar.”
 “E o que se seguirá após isso?” disse Lugh. “Se eu for poupado,” disse Bres, “as vacas de Erin sempre darão leite.” “Levarei isso aos nossos homens sábios,” disse Lugh.
 Lugh então foi até Maeltne Mór-brethach e disse para ele: “Bres deverá ser poupado para fornecer constantemente o leite para as vacas de Erin?”
 “Ele não deve ser poupado,” disse Maeltne, “pois ele não tem poder sobre sua idade ou sobre a (prole), pois ele só poderá ordenhá-las enquanto elas estiverem vivas.”
 Lugh disse para Bres: “Isso não te salva: tu não tens o poder sobre sua idade e sobre sua (prole), pois você não poderá ordenhá-las.”
 Bres disse: “Forbotha, etc.” (…)
 “Há algo mais que possa te salvar, ó Bres?” disse Lugh.
 “Tem, na verdade. Conte a seu brehon que se você me poupar, os homens da Irlanda farão uma colheita a cada trimestre do ano.”
 Lugh disse para Moeltne: “Bres deve ser poupado para dar aos homens da Irlanda uma colheita de grãos a cada trimestre?”
 “Isso nos satisfaz,” disse Maeltne, “a primavera para arar e para a semeadura, o início do verão para o fortalecimento do grão, o início do outono para a colheita do grão e o inverno para consumi-lo.”
 “Isso não te salva,” disse Lugh para Bres. “Forbotha, etc.” (…) disse ele.
 “Menos do que isso te salva,” disse Lugh. “O que?” disse Bres.
 “Como os homens da Irlanda devem arar? Como devem semear? Como devem colher? Depois de me dizer essas três coisas, tu será poupado.” “Conte a eles,” disse Bres, “que o arado deverá ser feito na terça-feira, a semeadura no campo na terça-feira e a colheita em uma terça-feira.”
 Através desse estratagema Bres foi liberado.
 Naquela luta, o campeão Ogma encontrou Orna, a espada de Tethra, um rei fomoriano. Ogma desembainhou a espada e a limpou. A espada depois contou todas as coisas que haviam sido feitas por ela, pois era o costume das espadas naquela época, que quando desembainhadas, contar todos os feitos realizados por elas. Por isso, as espadas também são autorizadas ao tributo da limpeza depois delas terem sido desembainhadas. Daí, também, encantamentos são preservados nas espadas. O motivo pelo qual os demônios podiam falar pelas armas naquela época era por que essas armas eram cultuadas por seres humanos e estavam entre a salvaguarda daquele tempo. Foi sobre essa espada que Loch Lethglas cantou:
Ademll maorna uath, etc.
 Lugh, Dagdae e Ogma perseguiram os fomorianos, pois eles haviam roubado a harpa do Dagdae, cujo nome era Uaitne. Eles então chegaram ao salão dos banquetes no qual estava Bres, o filho de Elatha, e Elathan, o filho de Delbaeth. Eles penduraram a harpa na parede. Essa era a harpa na qual o Dagda uniu as melodias para que elas não fossem cantadas até serem invocadas por ele, quando ele disse:

Venha Daurdabla!
Venha Coir-cethar-chuir!
Venha verão, venha inverno!
Entrada das harpas, gaitas e flautas!
 (Essa harpa tinha dois nomes: Dur-da-bla, ‘Carvalho dos dois (verdes)’ e Coir-cetharchuir, ‘Música de quatro ângulos’).
 A harpa então saiu da parte e matou nove homens até chegar ao Dagdae. Ele tocou para eles as três coisas pelas quais os harpistas são conhecidos: a melodia do sono, a melodia do sorriso e a melodia do choro. Ele tocou para eles a melodia do choro e todas as mulheres tristes choraram. Ele tocou a melodia do sorriso, e todas as suas mulheres e crianças sorriram. Ele tocou a melodia do sono, e as tropas adormeceram, e através do sono deles, os três escaparam ilesos dos fomorianos que desejavam matá-los.
 O Dagdae trouxe com ele [lacuna: texto omitido originalmente] através do mugido da novilha que havia sido lhe dado pelo seu trabalho, pois quando ela chamou seu bezerro, todo o gado da Irlanda que os fomorianos tinham tomado como seu tributo, pastaram.
 Agora que a batalha tinha sido vencida e os corpos haviam sido levados, a Morrígan, filha de Ernmas, procedeu até as alturas reais da Irlanda, para suas tropas fadas e para suas águas chefes e fozes de rios, a fim de proclamar a batalha e a poderosa tropa que tinha vencido. E a partir daí, Badb também descreveu os grandes feitos. “Você tem algum conto?” todos disseram para ela, que disse:
Paz sobe para o céu,
O céu desce para a terra,
A terra sob o céu,
A força está em todos,etc.
 Além disso, ela estava profetizando o fim do mundo e prevendo toda a maldade que estaria nele, todas as doenças e todas as vinganças e cantou a canção abaixo:

Eu não vejo um mundo querido para mim.
Verão sem flores,
Vacas estarão sem leite,
Mulheres sem modéstia,
Homens sem coragem
Capturas sem um rei.
[lacuna: extensão: aproximadamente seis palavras]
Bosques sem mastro,
Mar sem produção,
[lacuna: extensão: aproximadamente 40 palavras]
Falsos julgamentos de homens velhos,
Falsos precedentes de brehons,
Todos os homens serão traidores,
Todos os meninos serão ladrões.
Filho entrará na cama de seu pai,
Pai entrará na cama de seu filho.
Todos serão os cunhados de seus irmãos.
[lacuna: extensão: oito palavras]
Um tempo maligno!
Filhos enganarão seu pai,
Filhas enganarão sua mãe.

Notas da tradução para o inglês
a. Samildánach. Aqui é uma lacuna, obviamente.
b. Echarlám. Etharlám?
c. Cró de Lugh. Provavelmente alguma cabana ou outro recinto em que Lugh colocava seus prêmios.
d. Obviamente, a nota de um escriba inserido no texto por um copista. De acordo com os Four Masters, a segunda batalha de Moytura foi lutada em 3330 do anno mundi.
e. Grellach Dolaid. Agora conhecida como Girley, localiza-se a duas milhas ao sul de Kells, em Meath. Four Masters, 693 anno domini [e o Forus Feasa, do Keating, livro II, seção XIV, 140/141].
f. Márloch. Mor-loch, um nome para o Lough Ribh próximo à Lanesborough, condado de Roscommon.
g. Seus testículos? Cf. ‘airne toile’, O. Davoren 54.
h. Aqui foi omitido um relato do encontro do Dagda com a filha de Indech, sob as dificuldades causadas pela distensão do estômago do Dagda. Grande parte desse trecho é obscura para mim e o restante é muito indecente para ser publicado na Revue. O desfecho é que a filha de Indech se compromete a praticar suas artes mágicas contra a tropa de seu pai.
i. Aqui foi omitido um diálogo ininteligível entre Balor e Lugh.

Fonte: STOKES, Whitley. The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12. Disponível em: <http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html>.      
    
Notas de tradução
1. Cerveja. O termo original é ale, que apesar da tradução ser cerveja, a palavra tem um sentido diferente da nossa cerveja brasileira. O ale, segundo o site “Wikipédia”, é um tipo de cerveja produzida a partir da cevada maltada onde se usa uma levedura capaz de fermentar a cerveja rapidamente e proporcionar um sabor de frutas devido a componentes químicos encontrados nessa levedura.
2. Rath. Um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
3. Essas lacunas são palavras ou frases obscuras que os tradutores não foram capazes de traduzir do irlandês para o inglês.
4. Para. “Para”, no sentindo de “se ligando à”. Articulação se ligando à articulação e tendão se ligando ao tendão.
5. Wergild. De acordo com o site “Wikipédia”, o termo é oriundo da antiga sociedade germânica e sua palavra é traduzida como “preço do homem”, consistindo de um valor pago caso um homem fosse morto, como uma restituição.
6. Xadrez. No texto em inglês, o termo é chess que se traduz como xadrez, porém, no manuscrito original em irlandês, aparece a palavra fidchell, que não significam a mesma coisa. O fidchell, segundo o site “Wikipédia” foi um antigo jogo irlandês de tabuleiro com contraparte no País de Gales. Embora hoje não se saiba o método do jogo, as regras e as peças, acredita-se que este seja a origem do nosso moderno xadrez.
7. Laje. O termo original em inglês é flag-stone, que consiste em lajes de pedra dos megalitos.
8. Brehon. Segundo o site “Wikipédia”, é o termo histórico para designar um papel judicial, de arbitragem e mediador na cultura gaélica.
9. Testículos. O termo original em inglês é kidneys of his valour, que significaria “rins de sua coragem”, porém, uma nota da tradução para o inglês diz que poderia ser também “rins de seus testículos”. Acredito que a última tradução seja a mais provável, conforme coloquei aqui.
10. Brogues. Sapatos rudimentares usados na Irlanda antiga, feito com pele não tingida e com perfurações que permitem escoar a água quando a pessoa passasse por lugares molhados, como pântanos ou charcos. Mais tarde, evoluiu para uma versão moderna similar ao sapato Oxford.
11. Cairn. Monte ou pilha de pedras.   

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